Não é apelido, é um mantra sagrado
Desde que me conheço por gente, lembro de um pen drive que o meu avô tinha com algumas músicas alegóricas do Internacional. Talvez fosse um CD, não sei, faz quase 20 anos. De qualquer maneira, lembro da Disparada, cantando as glórias da Libertadores de 2006, pedindo para que se preparasse o coração para o Inter que vai jogar. Logo depois dessa, vinha o Tordilho Colorado, reimaginando a conquista do mundo em uma jornada do herói absurda. E, então, para fechar a coletânea, vinha o hino mais bonito já escrito em todo o universo. Bom, pelo menos pra mim, é.

Voltando um pouco no tempo, de 2006 para 1949, vemos que o próprio conceito da concepção do hino conta a nossa história. Nelson Silva, compositor carioca, estava morando em Porto Alegre quando se deparou com o próximo amor de sua vida: o Internacional. Grande fã do Flamengo, Nelson havia passado por uma situação que escancarou os laços segregatórios da época ao tentar ver seu time jogar contra o outro clube da capital gaúcha. O músico insistiu e discutiu, demandando que pudesse assistir ao jogo na torcida rubro-negra, contudo, ouviu que não poderia adentrar o Estádio da Montanha por ser negro. “O senhor não vai poder entrar porque é negro! Nosso clube não admite negros!” Que escárnio!
Sim, os tempos eram outros, mas inaceitável ouvir histórias como esta sendo contadas e não se indignar. Imagine não poder entrar no estádio, se conectar com seu time e viver em paz a sua paixão pela cor da sua pele. A gente não precisa voltar muito, afinal, as coisas seguem bem parecidas.
De qualquer forma, Nelson não desistiu de encontrar um templo para professar a sua fé, o futebol. E lá estava ele. Fundado em 1909 pelos irmãos Poppe, o Internacional levava esse nome por admitir e encorajar a adesão de qualquer pessoa. A tua diferença é o que te faz especial para sentar na mesa conosco, vestindo a camisa do Colorado, para se misturar com a tua gente. Era esse o lema. Um clube banhado a samba, trajado das cores de um dos blocos mais tradicionais de Porto Alegre, os Venezianos. Foi ali que Nelson entendeu qual era o seu lugar no Rio Grande do Sul. Ao que dependesse do Inter, seria onde ele quisesse.
Avançando alguns anos para frente, chegamos em 1957 e podemos reviver uma dura derrota do Colorado para o Aimoré. 3×0 fora o baile, um time extenuado e completamente abatido. Nelson, coberto de raiva pelo revés, precisou se lembrar do que fazia o Internacional ser o Internacional. Mais uma derrota fazia parte do jogo. Contudo, ser um espaço seguro era sua maior virtude.
A “glória do desporto nacional” que ele cita na abertura da canção vai muito além de um mundial décadas depois, da soberania absoluta em clássico, da quantidade de estaduais, do tricampeonato brasileiro, nas conquistas invictas e até do Rolo Compressor de anos antes. A glória do desporto nacional era abrir as suas portas a todos, sem distinção. Ser a casa das diferenças é parte da nossa história cravada em pedra no nosso hino. E assim deveria ser até hoje.
Quando admitimos que dois treinadores, independente de quem sejam, vistam as nossas cores e profiram comentários preconceituosos no nosso santuário das diferenças. Cada vez que vemos isso acontecer e não nos revoltamos, estamos impedindo que Nelson Silva entre em nosso templo e isso não está certo.
Eu tenho vergonha de saber que um dos meus maiores ídolos do esporte tenha tido a coragem de sentar em uma coletiva e falar em “time de viado”. Eu tenho vergonha em saber que algum dia o nosso símbolo sagrado tenha sido bordado no terno do misógino Ramon Diaz. Entretanto, eu tenho ainda mais vergonha em saber que meus pares, meus colegas e meus irmãos de Internacional achem que essas coisas não são assunto sério.

Nos últimos oito anos, as mulheres carregaram esse clube nas costas. Final de Brasileirão, semi da Libertadores, taça da Ladies Cup e um caminhão de estaduais foram conquistados pela raça e pelo sangue das nossas Mulheres Coloradas, apesar do desperdício de dinheiro com um departamento masculino que arrega, pipoca e não dá frutos de jeito nenhum.
Nossas mulheres são o ponto de equilíbrio desse time moralmente falido e completamente largado ao esquecimento das grandes prateleiras. O Internacional, desde 2017, é delas, com elas e por elas. Nossos coadjuvantes muito machos fizeram bem menos que a sua obrigação com investimentos absurdos.
Dessas mulheres, uma grande parcela é LGBT. Claro, isso pode não querer dizer nada pra ti, mas, na realidade, diz muito mais do que tu consegue ver. Um grupo pautado na força das mulheres e da comunidade LGBT foi a coisa mais vitoriosa que tivemos nos últimos oito anos. Mulheres que amam mulheres, jogam com mulheres, jogam pelas mulheres, jogam como mulheres.
Ser quem eu sou vem antes do time para o qual eu torço e eu não acho isso uma frase polêmica. Antes de ser o Inter, eu era uma pessoa bissexual já envolta em preconceito, lutando para sobreviver em uma sociedade que não aceita que eu simplesmente seja e esteja. Então, por ser quem eu sou, eu virei o Inter. Por ser quem eu sou, me trajei com o manto vermelho, com a cachaça na mão, pelo Rio Grande e pelo nosso amor. Eu sou quem eu sou pelo que o Inter é e o Inter é como é por todas as pessoas que já foram. Aceitar preconceitos dentro das nossas quatro linhas é cuspir no nosso passado alvirrubro e no de todas essas pessoas.
Eu não sou ninguém pra vir aqui te ensinar a torcer, mas se eu preciso vir aqui te relembrar a história do time que tu diz que ama para te convencer que é inaceitável que ofendam pessoas por suas diferenças em nosso solo sagrado, talvez tu não o ame tanto assim.
Abel, com todo respeito que eu tenho – ou talvez tinha – pela tua figura, venho te dizer que, talvez, se o teu grupo de machinhos jogasse como Isa Haas, Priscila, Fabi Simões, Bruna Benites, Gabi Barbieri, Belén Aquino, Katguria, Camilly, Millena, Canhotinha, Mari Ribeiro, Tamara Bolt, Solange, Rosana Maria, Karina, Daniela, Suzana, Eduarda e Ligia, talvez nós não estivéssemos na beira do precipício.
Talvez, se esses treinadores e jogadores honrassem Maria Von Ockel, como acham que honram as bermudas mijadas que vestem, nosso clube ainda seria parte da glória do desporto nacional. No momento, somos uma vergonha dentro e fora de campo.
Respeitar o Clube do Povo é, por essência, respeitar o seu povo. Seu povo que é mulher, preto, bissexual, lésbica, trans, indigena, amarelo, gay, neurodivergente e, bem de vez em quando, homem branco cis e hétero.
Respeitar o Clube do Povo é respeitar a todos. Sem exceção.
Por Luiza Corrêa
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.