Um empate que simboliza a luta entre fé e incompetência no Beira-Rio
Entre o céu e o inferno, o Internacional segue vagando em um limbo próprio, onde a fé da arquibancada tenta salvar o que a razão da gestão insiste em condenar. O empate com o Bahia foi mais do que um tropeço — foi o retrato cru de um clube que vive em guerra consigo mesmo, à beira do abismo, mas ainda sustentado pela devoção inquebrantável de quem o ama.

Tal qual dia e noite brigam no entardecer pelo predomínio do céu, no cosmos se trava uma batalha ferrenha entre algum espírito maligno e desencontrado que busca firmemente a decadência do Internacional — podem nomeá-lo de Alessandro Barcellos, talvez. Do outro lado, no entanto, feroz e quente como um dia ensolarado, o torcedor colorado urge numa fé inabalável no vermelho e branco do Sport Club Internacional.
Assim, enquanto céu e inferno parecem disputar a alma do Internacional, o Colorado ficou em um empate quase intragável por 2 a 2 com o Bahia, na 33ª rodada do Campeonato Brasileiro, que ocorreu neste sábado (8). Um duelo em que as orações entoadas num canto uníssono nas arquibancadas foram cruelmente vencidas pela incompetência na casamata — e também nas tribunas administrativas do Beira-Rio.
O Internacional conseguiu sobreviver a 15 minutos insalubres de domínio total do time baiano. Venceu um abismo onde o Tricolor de Aço chegou a performar 70% de posse de bola — um abismo enlouquecedor de um time desencontrado, mas que foi superado. O Colorado soube, de fato, sobreviver e encontrar corredores onde Alan Patrick, desaparecido há diversos jogos, finalmente conseguiu juntar a alma ao corpo e jogar futebol. Aliás, foi uma primeira etapa em que o time de Ramón Díaz soube honestamente jogar futebol.
Usando os espaços que pouco a pouco o adversário cedeu, Johan Carbonero fez fila na imponência da força física e chegou a um belíssimo gol — anulado pela interferência do VAR, que mesmo sobre um lance interpretativo, nas fuças do árbitro de campo, decidiu intervir na decisão inicial. O gol anulado, no entanto, pareceu aflorar uma fome imensa de gol ao time alvirrubro. Pouco tempo depois, aos 24 minutos, Vitinho marcou após um passe perfeito de Bruno Gomes e colocou o Internacional à frente no placar.
O time enfim esteve presente em campo, sinergicamente alinhado a uma canção que todo torcedor do Clube do Povo aprende bem cedo — e que ecoava como que em uma única voz: “Colorado é coração”. Numa frequência quase perfeita, se fez um primeiro tempo de um time que queria muito jogar bola, se manter à frente e entregar ao torcedor uma vitória que parece infinitamente distante.
Houve uma ilusão grandiosa, é verdade — segurada por defesas importantes do goleiro Ivan ainda nos primeiros 45 minutos, e ampliada quando, logo no começo do segundo tempo, Vitinho, servido outra vez por Bruno Gomes, ampliou o placar. Um 2 a 0 que pareceu magia — três pontos ali, ao alcance dos pés e das mãos, que logo na sequência falharam.
O Bahia diminuiu aos 14 minutos, e no ar pairou um clima tenso — mas não abalado — por aquilo que um torcedor de futebol entende sem nem encontrar palavras: aquele segundo em que tu olhas para o maior dos estranhos ao teu lado no estádio, aquele mesmo que te ofereceu há poucos minutos um abraço tão sincero, e num silêncio simples se sela um acordo de não se desacreditar até o minuto final.
O gol despertou o time visitante, que veio pra cima, correu, forçou, cansou. Mas além das pernas que lutaram bravamente para defender o resultado, a família Díaz optou por escolhas questionáveis e fez trocas com o objetivo de segurar o jogo — enquanto, do outro lado, Ceni engoliu o medo de perder qualquer coisa e jogou o time para cima.
Se Ramón fez escolhas erradas nas trocas, até que ponto se julga alguém que, vendo seu elenco “principal” cansado, olha para um banco de reservas tão enxuto e, com respeito aos atletas envolvidos, burro e deficiente? Dentre as opções do argentino, quem poderia de fato engrandecer o time quando se tem tão pouco à disposição?
O preço pago por uma gestão ruim e um clube claramente mal administrado, mais uma vez, foi alto — assim como vem sendo por toda a temporada. A conta chegou de maneira cruel, repetindo um roteiro doloroso e sufocante. Aos 48 minutos do segundo tempo, quando um momento de alegria palpável parecia enfim servido à mesa, o Bahia buscou o empate e findou o confronto.
Outra vez, sendo racionalmente repetitiva — intencionalmente repetitiva — não há como não falar da dor asfixiante de ver o Internacional, o gigantesco Sport Club Internacional de história imensa, brilhante e digna, beirar o desesperador abismo de um Z4.
Por Jéssica Salini
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.