Apesar de atuar melhor no jogo, Juventude perde fora de casa para o Internacional
Na tarde deste domingo (31), Inter e Ju se encontraram no Sesc Protásio Alves, em Porto Alegre, para disputar uma partida válida pela quinta rodada do Gauchão. O jogo foi bastante equilibrado e evidenciou forças e fraquezas de ambos os lados. Thais Amorim, destaque do Juventude, impediu que o placar saísse do 1 a 0 para o Colorado e manteve as Esmeraldas no jogo até o final, com direito a defesa de pênalti.
O Internacional, vindo de uma derrota por 5 a 1 em um Gre-Nal, não precisava de um jogo perfeito, mas de uma vitória expressiva o suficiente para retomar a confiança das atletas. Do outro lado, o Juventude vinha de um 6 a 0 acachapante em cima do EC Flamengo e com muitas chances de triunfo contra o time da capital. Dessa vez, o Colorado se saiu melhor no placar, mas não necessariamente na bola.

O primeiro tempo foi aquele jogo de ataque contra defesa que deixa claro que posse de bola não é garantia de nada. O Inter segurava a pelota, tocava, tentava chegar firme, mas sempre se perdia na marcação precisa e atenta do Juventude. Apesar de todo o espaço da defesa para trabalhar jogada, o Internacional não foi o primeiro a finalizar no alvo. Aos 9 minutos, Carol Ladaga se sentiu inspirada para cobrar um escanteio direto na meta, em busca de um gol olímpico. Ligada, a boníssima goleira Mari Ribeiro encaixou e acabou com os sonhos da camisa 25 de estrear o placar com um golaço.
Precisaram transcorrer onze minutos para o Colorado responder à essa chegada mais ofensiva. A lateral-esquerda Katrine partiu em jogada individual fazendo fila até a boca da área adversária. Na hora de finalizar, faltou um pouquinho de ângulo e capricho. A bola acabou por cima das traves de Thais Amorim, direto para a linha de fundo.
Mantendo o ritmo e sentindo que o gol vinha uma hora, a goleadora Julieta Morales também tentou deixar o dela. Depois, Belén Aquino cruzou na área e obrigou Thais a ir bem no cantinho para catar a bola e impedir a abertura do placar.
Mais ao final, um festival de finalizações sobre a meta. Pro Ju, Kamile Loirão finalizou com força demais na boca da área e mandou pela linha de fundo. Pro Inter, Aquino recebeu da conterrânea Clara Güell e acabou pegando mal na pelota. O primeiro tempo se foi com a impressão de que ofensivamente ninguém estava na frente. Contudo, defensivamente, o Juventude mostrava um volume de jogo maior.
Querendo mudar esse cenário, as Gurias Coloradas voltaram com outra postura para o segundo tempo. Sem se segurar na posse de bola, qualquer toque na gorduchinha virou criação consciente.
Logo aos 6’, Belén Aquino subiu mais que todo mundo para cabecear em direção às redes, mas foi impedida de marcar pelo pensamento rápido e ótimos reflexos da camisa 12 do Ju. Aos 12’, Paola – que jogava improvisada de lateral – cruzou para que Julieta Morales finalizasse sozinha de frente para o gol, mas a atacante acabou chutando mais à direita da meta. Na primeira ótima chance do Juzão, Kamile finalizou do meio da rua para uma defesa tranquila em dois tempos de Mari Ribeiro.
Mostrando que é, sim, uma ótima peça para se utilizar na ausência de Renata, Thais Amorim decidiu protagonizar uma defesa de placa aos 30 minutos da etapa complementar. Primeiro, usou o pé direito para impedir a abertura do placar por Rafa Mineira e, ainda caída, tirou com a mão direita o rebote aproveitado por Julieta Morales. Duelo de goleiras incríveis como em todo Inter x Juventude.
Contudo, Rafa Mineira estava obstinada a estrear o marcador e não aceitaria um não tão fácil. Recebendo de Iasmin pela esquerda, a meia desfilou futebol para fugir da marcação de Bruna Emília e encobrir Thais que, dessa vez, nada pôde fazer para evitar o 1 a 0.
Mesmo assim, dois gols já seria demais e a goleira faria de tudo para proibir isso – até defender um pênalti. Quando, aos 48 minutos, Carol Ladaga marcou uma falta em Belén Aquino dentro da área, a guarda-redes jaconera sabia que aquele era o momento de mostrar que ela não estava ali só para cumprir uma tarefa, mas também para brigar por espaço.
Capelinha, mais uma vez improvisada na zaga, ajeitou para cobrar um pênalti protocolar: forte, firme e tentando buscar o cantinho sem nenhuma gracinha. Era Thais contra Capela, Capela contra Thais. Concentrada, a volante colorada finalizou bem, mas a goleira jaconera se preparou melhor, catando a bola quase que com a facilidade de descascar uma bergamota. Fim de jogo. 1 a 0 pro Internacional.
Toda vez que Inter e Juventude ficam frente à frente, um sentimento de nostalgia doloroso me preenche. Minha mente volta para novembro de 2007, quase 18 anos atrás, dentro dos gramados do Beira-Rio. Depois de empatar em 1 a 1 em Caxias do Sul, as equipes decidiram quem avançaria de fase na primeira Copa do Brasil do futebol de mulheres em um dos principais estádios do Rio Grande do Sul.

Neste jogo tivemos defesa de pênalti, gol impedido, pressão colorada, marcação jaconera e uma raça impossível de explicar. Neste jogo tivemos presença das torcidas que, naquela época, acompanhariam seus times em qualquer circunstância, mesmo que o campeonato fosse da divisão regional de bola de gude.
Infelizmente, essa partida está guardada em um vídeo de 4 minutos no YouTube do Internacional e em duas matérias que juntas não somam 15 linhas no finado ClicRBS. As fotos? Pixels envelhecidos que não fazem justiça ao show que o Gigante da Beira-Rio presenciou. As memórias? Cenas nostálgicas e gloriosas de um tempo com muito menos recurso, mas muito amor também.
Desde 2007, departamentos fecharam e reabriram e algumas coisas conseguiram mudar para pior. Naquele ano, o Internacional tinha há pouco sido campeão do mundo no naipe masculino e as Gurias estavam disputando uma decisão de Copa do Brasil em seu estádio, na sua casa. Nada de Sesc, SESI ou qualquer CT que fosse. Naquele ano, o Juventude masculino caiu para a segunda divisão do Brasileirão e, mesmo assim, sua torcida respirava por mais uma fase em um campeonato nacional.
As Esmeraldas estão de parabéns pela sua temporada, sem sombra de dúvidas. A diretoria do Juzão entendeu como se cuida do departamento feminino, como se contrata e como se faz manutenção – inclusive com jogos no Alfredo Jaconi. Contudo, em Porto Alegre, o Internacional está, 18 anos depois de avançar de fase em um jogo antológico, tratando suas mulheres como um departamento protocolar.
Sem jogos no Beira-Rio, a não ser que chegue em finais, mas sem recursos para chegar a essas finais. Jogadoras improvisadas, contratações arriscadas sem justificativas e profissionais que não sabem lidar com suas posições em um time da elite. As três forças do futebol de mulheres no Rio Grande do Sul são times de ELITE e nada vai mudar isso a não ser a consequência das ações de suas próprias diretorias.
Ao Juventude, meus parabéns pelo Gauchão que vem fazendo e a minha torcida para que ambos os naipes permaneçam no lugar mais alto do futebol por muitos anos. A luta para ficar na série A-1 foi incansável e permanecerá sendo a cada novo ano. Que as Esmeraldas vão longe na Copa do Brasil e que sejam premiadas com títulos a partir daqui.
Ao Internacional, a minha esperança de que este momento tortuoso e complicado que assola ambos os departamentos tenha um fim o mais rápido possível. Não pela diretoria, nem pelos agentes, mas por uma torcida que nunca soltou a mão de seus atletas e pelas jogadoras que dariam a vida para jogar no Inter, mas quando chegam notam que o projeto vendido está sendo tocado por pessoas que não entendem – ou não se importam – com futebol feminino.
Sim, a área do futebol de mulheres não é fácil. Não quer ter que lidar com isso? Deixa o time masculino cair para a Série B e fica por lá até aprender a cuidar de um departamento feminino. Se isso for incômodo, fale com os especialistas, estude projetos vencedores e, principalmente, OUÇA A SUA TORCIDA. Eu tenho certeza que entre os apaixonados pelas Gurias Coloradas estão pessoas que conhecem a história de 2007 muito melhor do que qualquer um que esteja dando ordens.
O futebol feminino é coisa séria e de gente grande. Respeitem as mulheres que dão a vida nos gramados e as mulheres que lotam arquibancadas pelo país inteiro vestindo a sua camisa vermelha. Sem mulher, não tem resenha.
Por Luiza Corrêa
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.