Uma tentativa de homenagem a maior jogadora da história após seu vigésimo título
“Eu estava ali pedindo a Deus que não me castigasse tanto…” foi o que disse Marta ao Sportv sobre errar o pênalti que poderia ter garantido o título ao Brasil sem necessidade de cobranças alternadas. A camisa 10 errou sua tentativa, mas confiou que as mulheres que estavam ao seu lado fariam a sua parte e converteriam os seus. Confiou que as mãos ávidas de Lorena não sucumbiriam por completo diante das colombianas. Confiou que Deus, seja ele o que for para ela, não a castigaria em uma noite tão especial. E ela estava certa.
Quando me foi incumbida a missão de homenagear Marta em uma crônica, eu não soube muito bem o que fazer. Pensei em contar, de maneira quase documental, a história dessa mulher incrível que saiu de Dois Riachos, no Alagoas, para se tornar a jogadora de futebol mais importante da história, mas não seria emocional o suficiente. Pensei em listar seus títulos, porém apenas números não explicam a sua importância e eu não teria páginas o suficiente para falar de todos. Pensei, inclusive, que não existia como fazer justiça à sua grandeza em um documento de Word – e talvez não exista. Então, eu estou aqui, sem roteiro, falando sobre o papel que Marta desempenha, não para o futebol, mas para mim. Eu sou porque ela é.

Quem me conhece sabe que por muito tempo eu me mantive afastada do futebol em geral por conta de alguns traumas. Estava decidida a odiar o esporte e todas as suas modalidades. Não queria saber o nome de nenhum atleta, mas tinha uma exceção. Ela. Eu sabia quem Marta era – como todo brasileiro. Sabia onde jogava, como jogava, o que estava disputando e ganhando por aí. Algo na camisa 10 me despertava para uma parte minha que eu nem sonhava que existia.
Em 2015, decidi saber como estava indo a Copa do Mundo sediada no Canadá a partir de pesquisas na internet, pois era o máximo que eu conseguia chegar perto do futebol. Em um surto, no dia 21 de junho, pedi que o churrasco típico de domingo na casa do meu avô, acompanhasse o confronto entre Brasil e Austrália pelas quartas de final. Perdemos com um gol de Kyah Simon aproveitando a sobra da defesa de Luciana. Naquele dia eu senti uma decepção que eu nem lembrava como era.
Em 2016, voltei correndo da casa de uma amiga para poder acompanhar a disputa de pênaltis entre Brasil e Suécia na semifinal das Olimpíadas. Marta abriu as disputas confiante e esperançosa. Mesmo assim, a goleira sueca agarrou duas cobranças e a imagem que eu mais consigo lembrar daquele momento é a Rainha sentada no chão sendo consolada pela zagueira Bruna Benites.
Poderia se dizer que eu colecionava algumas dores acompanhando de longe um futebol que me animava, porém não parecia conseguir se sobressair. Em 2019, Marta deu uma entrevista emocionada após a eliminação para a França na Copa do Mundo. Com os olhos cheios d’água, a camisa 10 deu um recado que até hoje eu ouço em alto e bom tom na minha cabeça. “Não vai ter uma Formiga para sempre, uma Marta, uma Cristiane. O futebol feminino depende de vocês para sobreviver. Pensem nisso, valorizem mais. Chorem no começo para sorrir no fim”.
Eu não posso provar, mas eu acho que essa fala atingiu muitas das atletas que hoje têm a honra de vestir a nossa camisa. Sim, ela poderia ter atingido mais das pessoas que controlam o mercado, escolhem os dias e horários e negociam patrocinadores. Mesmo assim, elas atingiram as mulheres que agora se cobrem com o nosso manto e lutam até a última gota de suor pelas nossas cores.
Contra a Colômbia, Marta precisou confiar que estas discípulas saberiam o que fazer depois de errar a cobrança de pênalti direto nas mãos de Kate Tapia. Eu precisei confiar na minha paciência ao ler uma mensagem de um homem – óbvio – chamando a Rainha de pipoqueira em um grupo de whatsapp para discutir futebol. Independente se aquele erro poderia ter nos custado o título – o que não aconteceu -, é necessário lembrar que aquela cobrança só estava acontecendo por causa dela. Marta entrou aos 35 minutos do segundo tempo e fez o gol que garantiu mais dois tempos de prorrogação. Seu doblete nos deixou na frente pela primeira vez naquele jogo. O seu espírito e os aprendizados que ela compartilha com nossas meninas no dia a dia são a base que faz um time como o nosso sobressair os erros de dentro e fora de campo.
Com este jogo dourado, Marta está se despedindo da Copa América eneacampeã. Segundo ela, desta vez é verdade. E talvez realmente seja. A Rainha já está com 39 anos e, assim como todo mundo, ela merece um descanso. Ao lado de nomes como Sissi, Roseli, Pretinha e Formiga, Marta não vai simplesmente se aposentará. Marta sairá dos campos para entrar para a história – mesmo que essa referência seja um pouco mórbida.
Ela sempre esteve certa. Não teremos outra Formiga, nem outra Cristiane e muito menos outra Marta. O que teremos é o seu legado eterno e o prazer de saber que dividimos o solo que semeou a maior jogadora da história. Os seis títulos de melhor do mundo pela FIFA e as seis bolas de ouro concedidas pela France Football não chegam perto de mensurar a importância e a grandeza dela em nosso país.
A jogadora Marta é legado, memória e incentivo para milhares de jogadoras. A mulher Marta Vieira da Silva é símbolo para milhões de mulheres no Brasil e bilhões de mulheres pelo mundo. Seu impacto pega mulheres como eu, uma jornalista esportiva em formação, e se arrasta até mulheres como a minha mãe e a minha avó, que pouco sabem de futebol, mas sabem exatamente a resposta para a pergunta “quem é a maior jogadora de futebol de todos os tempos?”. É ela. Todos nós sabemos que é ela.
A única a ser melhor do mundo seis vezes, a primeira não norte-americana a disputar três finais olímpicas, a maior artilheira da amarelinha, a jogadora que consegue a proeza de dar uma voadora em outra atleta e as adversárias ainda pedirem para que ela não seja expulsa. Não existe outra que já pisou, esteja pisando ou vá pisar na Terra que possa ser comparada a ela. Nem no seu desporto, nem em qualquer outro. Marta é a número um e a número um é nossa.
Então, não. Não teremos outra Marta. Contudo, sempre teremos a nossa Marta. Em toda vitória sofrida e em cada derrota esperançosa. Em todos os berros frustrados, mas principalmente no choro de comemoração. Nas gotas de suor escorrendo pela testa e no batom vermelho na boca de qualquer atleta. Na dancinha divertida e no beijo no pé abençoado que nos leva adiante. Na malemolência brasileira que engana a goleira e na batida acelerada do coração de cada brasileiro antes do grito de gol, Marta está e sempre estará. Pessoas vêm e vão, jogos acabam e luzes se apagam, entretanto, a memória não se esvai, só se fortalece. Agradecemos a Deus, seja ele o que for para nós, por ter nos abençoado tanto.
Ela é porque Sissi foi. Eu sou, porque ela é e sempre será. Eternamente, Marta!
Por Luiza Corrêa
*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.
2 comentários sobre “Marta! Eternamente, Marta!”
Emocionada aqui, como podemos fazer esse lindo texto chegar para Marta ? ☺️
Que texto emocionante… Marta representa muito pro futebol e pro esporte brasileiro em geral.
Temos sorte por sermos contemporâneos à tanta genialidade… Uma lenda!