Tabu muito bem mantido


Gurias Coloradas goleiam o Dragão e conquistam primeira vitória no estadual

No anoitecer desta sexta-feira (1), o Internacional foi a campo no Estádio das Castanheiras, em Farroupilha, na estreia do Campeonato Gaúcho, e venceu as donas da casa do SERC Brasil por um placar elástico de 5×1. 

O confronto marcou o décimo segundo encontro das equipes e, também, a décima segunda vitória do Clube do Povo. Mesmo com o triunfo acachapante do Colorado, o embate também marcou o segundo gol-rubro verde da história em cima do Inter. Uma noite onde nem o frio da Serra Gaúcha pôde amenizar o calor competitivo dentro de campo.

(Crédito: Lara Vantzen/SCI)

Antes de falar sobre o Gauchão, é interessante que a gente entenda que alguns resultados, mesmo que negativos, trazem marcas muito mais animadoras do que uma decepção para os times menos conhecidos do futebol gaúcho. Antes da bola rolar em Farroupilha, o Colorado já era um favorito inegável por conta da invencibilidade na história do confronto. 

Eram 11 jogos sem uma derrota ou mesmo um empate e 69 gols marcados pelas Gurias Coloradas. Do outro lado estava um Brasil aguerrido e recém reforçado, que só havia marcado uma vez contra o Inter, com o talento de Bianca Bender. Vencer seria uma improbabilidade histórica para o time rubro-verde, contudo, balançar as redes das visitantes seria uma conquista a ser lembrada. 

Claro que todos os torcedores, de ambas as equipes, queriam acompanhar a partida de perto, mesmo estando longe, mas a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) fez questão de dificultar isso ao máximo. O regulamento da competição 

O Internacional entrou sem duas de suas titulares absolutas. A atacante Belén Aquino e a zagueira Fefa Lacoste estavam defendendo as cores do Uruguai na disputa do terceiro lugar da Copa América – a camisa 2, inclusive, foi a responsável pelo pênalti errado que deu a medalha de bronze à rival Argentina. (Estamos contigo, Fefinha!) 

Por outro lado, também tivemos duas novidades nas relacionadas coloradas. A volante Gabi Moraes voltou a ficar à disposição do professor Maurício Salgado depois de se recuperar de uma lesão no joelho esquerdo e a lateral-direita Moniquinha, vinda por empréstimo da rodoviária, fardou já na titularidade. 

Falando em lateral, do outro lado estava Eskerdinha como defensora titular, o que não é uma novidade, apenas uma insanidade do professor. Não que isso faça muita diferença, eu só queria deixar aqui a minha reclamação mesmo. De qualquer maneira, bora pro jogo!

O início da partida foi um reflexo do que as pessoas esperavam dela. Um Internacional melhor postado e mais intenso controlando a bola contra um Brasil que trabalhava com vontade em contra-ataques rápidos e bem organizados pelos lados. Uma coisa que vimos muito no Brasileirão este ano do lado colorado foram ótimas oportunidades, principalmente de bola parada, que foram extremamente mal aproveitadas, independente da posse de bola ou do talento sendo demonstrado pelas detentoras da camisa vermelha. Contudo, essa noite trazia algo de diferente no destino das Gurias.

Em uma cobrança de falta pela direita do campo e não muito longe da área, Katrine levantou pela esquerda da barreira de duas defensoras e viu a bola ricochetear entre jogadoras rubro-verdes e coloradas. Na indefinição do corte da jogada, Clara Güell ficou com a sobra e estufou as redes adversárias, com um chute de primeira saindo de seu pé direito. Oito minutos transcorridos e o placar já estava favorável para o Inter. 

Depois de amargar uma eliminação por 3×1 no agregado para o Pérolas Negras nas oitavas do Brasileirão A3, o rubro-verde tem a chance de se fortalecer no Gauchão e na Copa do Brasil, então era imprescindível que algo especial acontecesse nesta estreia. Mesmo com o revés à vista logo no início, as gurias do Dragão estavam dispostas a quebrar pelo menos um jejum neste encontro e a atacante Lorena sabia muito bem o que fazer.

A velocidade das jogadoras de lado, sejam elas laterais, alas ou pontas, pode ser decisiva para qualquer time que souber explorá-la e aqui não foi diferente. Depois de 13 minutos passados desde a abertura do placar, o Dragão seguia buscando o empate e fazendo uma correria a cada contra-ataque. Aos 21 minutos, a ponta-direita Emmily Karla – também conhecida como Minhoquinha – finalizou para a defesa de Mari Ribeiro, que deixou a bola rolar no campo.

Nenhuma das defensoras do Colorado conseguiu interceptar a sobra e esta acabou ficando com a camisa 9 das donas da casa. Lorena trabalhou brevemente a posse perto da marca de cal que delimita a área e não pensou duas vezes. Depois de ajeitar para o pé direto, a atacante fez o que a posição pede que ela faça de melhor. Uma bucha fez uma leve curva até encontrar o ângulo direito do gol de Mari Ribeiro, colocando o nome de Lorena na história do confronto e um 1×1 no placar.

Como mencionado anteriormente, esta foi a noite de coisas especiais – e até inesperadas – acontecerem. Quando uma van com alguns torcedores das Gurias saiu de Porto Alegre rumo à Farroupilha no início da tarde desta sexa-feira, eu tenho certeza que nenhuma das senhorinhas trajadas com sua camisa vermelha e a bandeira não esperavam presenciar um dos gols de bola parada mais bonitos da retomada do departamento feminino do Internacional. Eu pelo menos não esperava. 

Aos 23’, dois minutos depois de levar o empate, Capelinha ajeitou a bola para cobrar uma falta bem distante da área. A título de demonstração da distância que ela estava, a volante estava dentro do círculo central do campo e deu cinco passos antes de atingir a bola. Cinco passos estes que guardavam um carinho muito grande na preparação para aquele lançamento. 

Contra toda a falta de expectativa, a volante decidiu cobrar aquela falta direto no alvo, sem passar por qualquer colega em seu trajeto. Capelinha tinha uma chance de liberar o grito pronto para deixar as gargantas de todos os colorados que estavam com ela naquele momento. E ela conseguiu. Em um torpedo inacreditável, que tinha endereço certo e inalterável, o Inter ultrapassou novamente as donas da casa no placar. 2×1.

Qualquer jogador ou jogadora que tenha o número 17 marcado em suas costas carrega o legado de Andrezinho em seus ombros. Torcedor, tu sabes exatamente de que momento eu estou falando. Aquele gol de falta contra o Flamengo, que classificou o Inter dentro de casa para a semifinal da Copa do Brasil em 2009, vive como uma tatuagem no cérebro de qualquer colorado. 

O futebol é feito de momentos como este e Capelinha sabia exatamente o que estava fazendo quando mandou aquela bola tão certeira para o fundo da rede. Não iguala o feito de Andrezinho, mas mostra que nossas jogadoras estão prontas para jogar com a história dentro de campo. Uma imagem fala mais que mil palavras e a comemoração da camisa 17 fala mais do que um pós-jogo inteiro. 

(Crédito: Lara Vantzen/SCI)

O segundo tempo mostrou mais do mesmo para os dois lados. O Brasil continuava criando e dando trabalho para a defesa colorada. A chance mais clara veio dos pés de Gabizinha, aos 15 minutos da etapa complementar. Depois de uma bola lançada por uma das jogadoras do Dragão em direção à área, Mari Ribeiro não conseguiu segurar firme e, mais uma vez, permitiu sobra. A camisa 11 rubro-verde então tentou repetir o feito de Lorena no primeiro tempo, porém foi surpreendida pela zagueira Bianca Martins, que cortou a bola antes que o perigo se confirmasse.

A vitória estava do lado do Internacional, mas a vontade de ampliar o placar era grande demais. Algumas chances surgiram, porém o terceiro gol só se concretizou quando um passe da recém recuperada, Gabi Moraes, encontrou Pati Llanos dentro da área. A camisa vinte usou a canhota para desvencilhar a bola da confusão que se armava em sua frente e encobrir a goleira Gaby. 3×1.

Aos 26’, Clara Güell deixou o seu doblete cruzando rasteira em direção ao canto esquerdo do gol de Gaby após passe longo da estreante Moniquinha e, aos 38’, a artilheira Julieta Morales decidiu aparecer para fechar a conta ao girar com contra a marcação de duas defensoras do Dragão e deixar a bola no mesmo lugar que a sua conterrânea deixou anteriormente. 5×1 e uma comemoração calorosa dos torcedores que lá estavam cantando por suas Gurias. 

Mesmo com o placar elástico, é muito importante parabenizar as gurias do Brasil que em nenhum momento desistiram do jogo e acreditaram até o final na sua proposta. Não é sempre que se vê um time tão aguerrido quanto o que entrou nas Castanheiras para defender as cores do Dragão. Parabéns, gurias!

Falando do time da capital, podemos sentir que as Gus estão com vontade de jogo e com fome de vitória. É muito difícil manter uma esperança desmedida depois de acompanhar a luta que foi o Brasileirão, mesmo assim, me permito acreditar que o time se manterá forte e intenso, mesmo contra clubes mais competitivos como Juventude e Grêmio.  Vencer o Gauchão e lutar pelo título da Copa do Brasil são obrigações para Maurício Salgado e suas comandadas, mas hoje é dia de respirar e comemorar a ótima partida disputada em Farroupilha.

O Colorado volta aos gramados na quarta-feira (8), às 19h, para enfrentar o Instituto 3B no Passo D’Areia, em Porto Alegre, pela terceira fase da Copa do Brasil. Gurias, estaremos com vocês!

Por Luiza Corrêa

*Esclarecemos que os textos trazidos nesta coluna não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Mulheres em Campo.


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